É impossível para nós, homens, compreender plenamente o medo que acompanha tantas mulheres no trajeto para casa, no trabalho, na rua ou até dentro do próprio lar. Mas o que já deveríamos ter entendido é que o silêncio masculino tem sido combustível para a violência. Fingir que é “coisa de casal”, minimizar, ou enxergar como exceção aquilo que é rotina, nos coloca do lado errado da história.
Todos os dias, mulheres brasileiras são assassinadas apenas por serem mulheres. Não é um acidente, não é repentino, não é fruto de um rompante inexplicável, é a etapa final de uma escada de agressões que começa muito antes do golpe fatal. Uma voz alterada, uma ameaça velada, o controle do dinheiro, a chantagem emocional, o empurrão na porta da cozinha. A violência vai crescendo enquanto nós desviamos os olhos.
E é aí que está o problema.
Nada mudará enquanto fingirmos que não é conosco
Seguimos acreditando que basta endurecer penas, criar leis ou divulgar campanhas. São medidas necessárias, mas insuficientes quando nós, homens, continuamos relativizando comportamentos que alimentam essa tragédia.
Nos acostumamos tanto a ouvir “brincadeiras” misóginas, comentários de posse e discursos que naturalizam o controle sobre o corpo feminino que já nem percebemos quando participamos disso.
A verdade é incômoda: o feminicídio não nasce no dia do assassinato, ele germina na cultura que nós mesmos ajudamos a sustentar.
Precisamos assumir nossa parte
É urgente falar de políticas públicas, de educação, de protocolos de atendimento para identificar riscos, de redes de proteção eficientes. Mas é ainda mais urgente encarar o que evitamos admitir: não haverá redução dessa carnificina enquanto os próprios homens não romperem com comportamentos que perpetuam a violência.
Todos os dias, mulheres brasileiras são assassinadas apenas por serem mulheres. Não é um acidente, não é repentino, não é fruto de um rompante inexplicável, é a etapa final de uma escada de agressões que começa muito antes do golpe fatal.
Um exemplo recente assustador ocorreu em Itararé (SP): a jovem Raquel de Oliveira Lima, de 26 anos, foi morta a facadas pelo ex-namorado, na calçada da rua, diante do próprio filho, uma criança. Depois do crime, o agressor chegou a fotografar o corpo e enviar a imagem para um grupo da igreja de que participava — um gesto de frieza que chocou a cidade.
Esse crime brutal revela que o feminicídio nem sempre é um ato isolado de violência — muitas vezes, é o clímax de um ciclo de abusos, ameaças e controle que (infelizmente) foram minimizados e ignorados por quem deveria proteger.
Não vai parar enquanto acharmos normal:
- fazer piada com a dor de mulheres,
- chamar de “exagero” o medo que elas sentem,
- tratar ciúme como prova de amor,
- culpar vítimas por não terem “ido embora antes”,
- ignorar sinais de abuso em amigos, familiares e colegas.
Não vai parar enquanto acreditarmos que indignação seletiva já basta.
A mudança precisa começar dentro de casa — e dentro de nós
É desconfortável admitir que muitos homens que matam não são monstros que vivem à margem da sociedade, mas indivíduos comuns, que convivem conosco, que já sentaram à mesma mesa, que já dividiram conversas banais.
Por isso, a transformação não virá apenas das instituições, ela tem de vir de nós.
Precisamos parar de procurar explicações que aliviem nossa culpa coletiva. Precisamos ouvir mais, falar menos, intervir quando necessário e, acima de tudo, revisar nossas próprias atitudes.
Porque cada vez que adiamos essa conversa, mais mulheres deixam de voltar para casa.
E nenhuma vida deveria depender da disposição de homens em finalmente se responsabilizar.
📲 Siga as redes sociais da RVS: Instagram, X (Twitter) e Facebook
📲 Receba no WhatsApp as notícias da sua cidade
