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Só a educação midiática pode nos salvar – por Pedro Andrade

Nesta semana, o youtuber podcaster Bruno Aiub, também conhecido como Monark, fez uma declaração ao vivo afirmando que era a favor de legalizar a criação de um partido nazista.

O assunto repercutiu midiaticamente durante toda a semana. Os usuários cobraram às marcas patrocinadoras do podcast em questão para que se manifestassem publicamente sobre o ocorrido. Organizações e entidades judaicas repudiaram a fala do apresentador e as plataformas foram palco de um grande debate sobre a legalidade de se desejar liberdades irrestritas.

Logo depois do programa ir ao ar, o apresentador se desculpou afirmando que estava bêbado. Também disse estar sofrendo um “linchamento desumano”. Vale lembrar que Monark também já havia questionado se era errado ter uma “opinião racista” e minimizou o crime de homofobia comparando-o com o ato de tomar refrigerante. Monark foi demitido do programa na quarta-feira (09).

Mas esse texto não está centrado na fala do apresentador. Aqui quero abordar outra coisa: os fluxos comunicacionais contemporâneos. 

Todos pertencemos a redes sociais. Elas nos interligam e nos conectam com outras pessoas, e portanto, fazem de nós o que somos. Na família, no trabalho, com amigos. O ser humano participa de redes sociais desde que entende a socialização como propulsora de formas de se manter vivo.

Já as redes sociais online – as grandes plataformas de mídia – são crianças de colo nas dinâmicas de comunicação se olharmos para a história. Surgiram há pouco, mas remodelaram as formas de sociabilidade, de como nos vemos e percebemos em relação aos outros, mas principalmente na forma como recebemos informações.

As plataformas de redes sociais abriram lacunas incontornáveis e amplificaram vozes que antes não eram efetivamente ouvidas. A internet possibilitou que a informação e a comunicação não estivessem mais exclusivamente nas mãos dos grandes conglomerados de mídia, por exemplo. Todos podem ser ouvidos, em alguma medida.

O que aconteceu na quarta-feira pode ser lido de diversas formas. Como lidar com esse fato? Não há resposta pronta. Mas algumas dicas podem nos ajudar a iniciar um processo que vá na contramão do acontecido para que ele não se repita.

E ele começa com educação midiática, desde o ensino básico. As escolas precisam estar preparadas para lidar com o fato de que os celulares e outros dispositivos tecnológicos fazem mais parte da vida das crianças e adolescentes que qualquer outro objeto, e não parece que as novas gerações vão escapar disso. A educação midiática nos ajudaria a formar crianças com habilidades para entender os novos fluxos de informação, sendo capazes de participar dessa nova estrutura de sociedade de forma crítica e analítica. Saber interpretar uma informação, entender quando confiar em uma notícia, e principalmente: quando confiar em uma pessoa.

Com a educação midiática, entenderíamos a quem dar atenção. Hoje a internet e as plataformas se sustentam a partir de algoritmos. Quem são? Como agem? Como participantes desse circuito tecnológico, os algoritmos funcionam a partir da atenção. Eles não sabem diferenciar questões de valor, nem entendem sentimentos. O que importa para os algoritmos é para onde e como as pessoas estão focando sua atenção. Com educação midiática entenderíamos que uma postagem negativa tem o mesmo valor de uma positiva, e aprenderíamos a esvaziar discursos. A máxima “não dar palco pra maluco” faz todo sentido aqui.

Com a educação midiática em dia e com o entendimento de que a atenção é o bem mais valioso na internet, os limites sobre o quê e quem escutar seriam mais estabelecidos e visíveis. Os limites estariam por exemplo na possibilidade de que entendêssemos que todas as profissões e ofícios têm habilidades e competências específicas. Podemos deixar que pessoas sem formação básica em comunicação estejam a frente de um podcast que possui milhões de ouvintes mensais? Podemos, ora! A internet nos permite que a produção seja verticalizada. Deveríamos? Os limites nos responderiam. Afinal, as produções são baseadas na economia de atenção, que movimentam as marcas para que patrocinem os programas… Em um ciclo eterno que é próprio das dinâmicas das redes.

Moral da história? Educação midiática! Pra ontem.

Sobre o autor: Pedro Andrade é mestrando em Ciências da Comunicação na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Jornalista por formação, escreve sobre cultura e comunicação digital e os atravessamentos com o cotidiano contemporâneo

Pedro Andrade

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