Reportagem Especial

Acima de tudo, livres – por Jusciane Matos

Que sejamos livres, pra sermos mães, pra não termos filhos. Pra amar um homem ou outra mulher. Mas, acima de tudo, livres pra viver.

Que sejamos livres, pra sermos mães, pra não termos filhos, pra ser chefe de uma empresa ou dona de casa. Pra amar um homem ou outra mulher. Mas, acima de tudo, livres pra viver.

O ano é 2021 e escrevo esse texto sentada no chão da minha cozinha sob o olhar observador dos meus dois gatos depois de um longo dia de trabalho. Você deve estar pensando o que diacho isso tem a ver com o dia das mulheres e porque ainda temos um dia dedicado às mulheres se já conquistamos tantos direitos?!

Para começar, sim, conquistamos muitos direitos, mas ainda há muita luta por igualdade entre homens e mulheres. Muito provavelmente eu não viverei tempo suficiente pra viver em pé de igualdade com os homens. Você também não. Mas, há pouquíssimo tempo, pessoas como eu – mulheres – jamais imaginariam que trabalhar, dirigir, votar, escrever seriam possíveis e “normais”. Jamais imaginariam uma mulher solteira, morando sozinha, com dois gatos, vida sexual saudável e feliz.

Porém, reconheço que ainda hoje esse é um lugar privilegiado e estou nele. Ter um emprego estável, com carteira assinada, uma casa confortável, uma educação formal interessante e alguma trajetória social e política que me permitem viver, especialmente viver. Apesar de possível, é sim um privilégio.

Estamos no segundo ano de uma Pandemia que mudou as estruturas familiares. E adivinhem quem mais sentiu o impacto? As mulheres. Os casos de violência doméstica aumentaram. O trabalho aumentou consideravelmente e o dinheiro reduziu de forma drástica. Não é fácil ser mulher em 2021. Como não foi fácil em 1920. Como não será fácil nas próximas décadas.

Por isso, este dia é sobre mim e minhas contemporâneas, mas é muito mais sobre nossas antecessoras que abriram os caminhos e sobre as que ainda virão. Nosso papel aqui é continuar a luta porque ainda está muito longe de chegarmos onde precisamos.

A normalidade de poder fazer algumas coisas lançou a falsa ilusão de igualdade de direitos. Ainda não temos o direito básico de ir e vir sem sentir medo. Ainda precisamos usar o vagão exclusivo no metrô pra nos sentirmos seguras. Ainda precisamos pensar na roupa que vamos usar dependendo da hora que vamos voltar. Ainda temos homens validando com outros homens a nossa sexualidade. O nosso corpo. A nossa liberdade. A nossa vontade.
Ainda temos nosso caráter sendo julgado pelas nossas roupas. Ainda somos assassinadas por sermos mulheres. Estupradas por se recusar fazer sexo com quem não temos interesse. Temos nossa capacidade de ascenção profissional reduzida a possibilidade de ter filhos.

Beauvoir dizia “Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre”.

Que sejamos livres pras nossas escolhas e pra trilhar nossos caminhos. Pra sermos mães, pra não termos filhos, pra ser chefe de uma empresa ou dona de casa. Pra amar um homem ou outra mulher. Mas, acima de tudo, livres pra viver.

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