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Escutar as ruas (quase) sempre – por Pedro Andrade

Desde o início da década de 2010, com a Primavera Árabe, nos foram apresentadas novas maneiras de se manifestar no espaço público. Os movimentos em questão não se iniciariam mais com aspirações dos intelectuais nas Universidades, nem nas bolhas dos sindicatos. A internet, as redes e as mídias digitais online proporcionaram que as pessoas trocassem experiências acerca de suas vivências e demonstrassem seus descontentamentos a partir de suas realidades. A mídia hegemônica foi jogada pra escanteio, e a cobertura era feita por quem vivia o movimento de fato, e não pelos helicópteros que sobrevoavam as multidões. Eram sinais de mudança.

Grandes manifestações se formaram mundialmente com particularidades correlatas. Estudiosos da sociologia e da comunicação digital, ao traçarem paralelos entre os movimentos, chegaram a algumas conclusões: 1) os movimentos começavam na internet, 2) não tinham liderança predefinida, 3) possuíam motivações antissistema e, por vezes, contraditórias, 4) eram sempre horizontais e 5) aconteciam de forma glocalizada; tendo características locais, regionais, nacionais e transnacionais, tudo ao mesmo tempo.

A Primavera Árabe é a principal e mais emblemática amostra do que se convencionou chamar, entre os estudiosos, de “novíssimos movimentos sociais” ou “movimentos sociais em rede”. O Occupy Wall Street (EUA), o Movimento dos Indignados (Espanha) e as Jornadas de Junho (Brasil), também se encontram na mesma esteira destes movimentos e podem ser conclamados também, como representantes deste estilo híbrido de manifestar-se.

Estes protestos, antes de invadirem o espaço público, como já dito, acontecem na internet. A efervescência coletiva, termo descrito pelo sociólogo Émile Durkheim, descreve algo próprio às manifestações sociais nas ruas: as pessoas se unem a partir de um ideal e objetivo em comum, homogêneo. Essa característica, antes propriamente de acontecer fisicamente, com os movimentos sociais em rede, já acontece na internet: são as hashtags, os tuitaços, os compartilhamentos e as publicações, e os filtros via Facebook, por exemplo. A efervescência é digital. Somos iguais, pensamos iguais, estamos unidos por objetivos iguais.

Mas e quando isso deixa de reverberar na prática? As redes, representadas aqui pelas big techs (Facebook, Google, Microsoft, Amazon, Apple), têm maneiras de funcionamento e articulação próprias que muitas vezes desconhecemos. No entanto, se há algo que sabemos bem, a partir de experiências muitas, é que as redes esgotam as ações com sua imprevisibilidade, seu caráter mutável e, além de esvaziar o discurso, fazem com que as pessoas acreditem que de fato estão sendo ouvidas, quando sabemos que os filtros-bolha estabelecidos pela força algorítmica das redes (constantemente mais visíveis a partir de sua maturidade técnica), nos afasta ainda mais de pensamentos, opiniões e argumentos distintos dos nossos. Afinal, quem não desfez amizades nas eleições de 2018? 

A direita tem usado as dinâmicas e o modus operandi da rede de maneira subversiva. Ao entender o seu funcionamento, tira vantagem disso tudo, nem que isso custe aos debates éticos e morais. A esquerda, contudo, ainda engatinha quando o quesito é internet. Perdida no tempo-espaço, não consegue se desvencilhar do tradicionalismo e afasta as pessoas com sua verborragia. Quanto isso custa? Ainda não sabemos, mas as eleições de 2018 são uma amostra significativa de como tudo funciona. E como tudo pode piorar.

No sábado (29), os movimentos populares voltaram às ruas para reivindicar – entre tantas outras coisas – a má gestão da pandemia pelo governo Bolsonaro. Em meio a um aumento de casos, à chegada da terceira onda e ao ritmo vagaroso da vacinação, as pessoas decidiram pelas redes, com apoio dos movimentos sociais e das centrais sindicais, se encontrar nas ruas.

Visivelmente mais organizada que as manifestações de apoio ao Presidente Jair Bolsonaro, que acontecem com frequência desde o início da pandemia e, com a conscientização mínima acerca dos cuidados básicos de distanciamento social e do uso de máscaras, o recado foi dado. 

Ainda não sabemos o resultado prático dos atos. Há uma parte da ala progressista que rejeitou os protestos e criticou lideranças por apoiarem as movimentações em um momento onde já se fala em uma terceira onda acontecendo com brutalidade em solos brasileiros. Outra, afirma que é preciso tomar as rédeas das ruas – que  historicamente, sempre foram da esquerda – sob a justificativa de que “se o povo vai às ruas durante uma pandemia é porque o governo aterroriza mais que o próprio vírus”. 

Contrariedades à parte, a rua continua falando, sempre. E, se fala, é porque ainda há resquícios de democracia, ainda que fragilizada e machucada. Infelizmente, às vezes a rua fala para pedir o fechamento do Supremo Tribunal Federal, por exemplo. Outras, para avisar que o gigante acordou, mesmo que logo depois seja posto para dormir outra vez. Mas lembremos que ela também fala pra avisar sobre boas novas vindouras, pra reivindicar que o transporte público deve servir ao povo ou pra concluir de uma vez por todas que ver o próximo morrer por uma doença pela qual já se existe vacina, é sim, genocídio.

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