Sol Nascente

Em busca da luz no fim do túnel

A história da ambulante que vende bala e pede ajuda com o filho de dois anos no colo

De vagão em vagão, Cícera Estefane, de 20 anos, se arrisca em passar despercebida pelos seguranças da movimentada estação de metrô Galeria, em Brasília, para poder vender balinhas de menta e hortelã. Cada pacotinho de R$ 2 se transforma no fim do mês em R$ 780, o mínimo para pagar as contas. São 7h, o horário é de pico, com trajes simples e uma criança de 2 anos ainda adormecida em seu colo, Cícera entrega de forma disfarçada os 30 panfletos impressos com o pedido de ajuda para poder sobreviver. A máscara esconde a expressão no rosto de Cícera, mas o olhar dos passageiros fica carregado ao ver o bebê no colo da mãe. 

A moradora do Sol Nascente, Região Administrativa do DF, acorda há um ano às 6h com a fé renovada para mais um dia arriscado nos vagões lotados. Entre uma estação e outra, as portas se abrem e sobra o tempo aflito de aproximadamente 1 minuto. Cícera carrega seu filho e tem que ir de um vagão para o outro sem ser percebida pelos seguranças.

Mãe solo, e pela primeira vez aos 16 anos, apenas com a 6ª série do ensino fundamental, se viu diante de uma situação complicada. “Precisava ganhar dinheiro e sustentar meus filhos”, destaca a jovem que destaca que seu primeiro emprego foi vendendo balinhas no semáforo em frente a uma movimentada choperia na Ceilândia. Ainda grávida, todos a conheciam ali. “Me lembro que uma vez um homem me assediou e foram os seguranças que me ajudaram. Foi humilhante”, reforça.

“Nas duas gravidez, tive que trabalhar no semáforo e não tive outra saída”. A realidade de nunca ter tido acesso a um trabalho formal e com direito, é difícil para Cícera. Quando questiono sobre como é trabalhar no metrô, ela responde após um instante em silêncio e cabisbaixa: “É muito difícil e humilhante”.  A efetivação em uma vaga de serviço gerais não se concretizou pela sua escolaridade. 

Ainda na conversa com a nossa redação, a jovem diz: “No metrô tem lugar para todo mundo, mas não deixa de ser humilhante”.

As situações constrangedoras também estão presentes no rápido veículo sobre trilhos. Enquanto seu filho mais velho de 4 anos está na creche pública em Ceilândia, o caçula que ainda não tem noção da situação, vai colecionando memórias dos dias em que acompanha sua mãe na luta pelo pão de cada dia. 

“Algumas pessoas perguntam porque eu trago meu filho e até acham que eu trago ele para poder comover, mas tem dias que realmente não tenho com quem deixar”, desabafa. Dia após dia, ela vai se virando com muita garra para sobreviver. Ela destaca sua luta em conseguir uma vaga na Creche Pública de Ceilândia. Todos os dias liga no 156 (Central de Atendimento ao Cidadão do Distrito Federal), mas nunca recebe respostas satisfatória.

Futuro

Cícera tem o sonho de estudar, arrumar um emprego e mobiliar sua casa. A profissão de farmacêutica faz seus olhos brilharem. “Quero poder terminar os estudos e cursar a faculdade”, diz. Destacando várias vezes a vontade de comprar móveis, pergunto como é a casa dela. “Tenho poucas coisas”. Brinquedos espalhados no chão que é revestido por uma fina camada de cimento, as paredes sem pintura, uma televisão de plasma antiga apoiada em uma mesa pequena. Uma cama, que ela destaca ser velha, é dividida para a mãe e os dois filhos pequenos.

Ela diz que o sonho é conseguir um emprego e poder ir mudando sua vida “aos poucos”. Espera que este texto chegue a pessoas que possam ajudá-la. “Que alguém veja e possa me dar uma oportunidade. Eu realmente quero trabalhar de verdade”, desabafa esperançosa.  

Durante a pandemia, o movimento de passageiros despencou e suas vendas também. Os poucos que ainda utilizavam o transporte público não queriam pegar o panfleto, por medo do vírus. Cícera sobreviveu de doações. Hoje, consegue faturar menos de um salário mínimo por mês e ainda conta com ajuda de doações enquanto não consegue mudar de vida. 

Quer ajudar? O contato da Cícera é 61 9517-4418

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