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A Romantização da Maternidade – por Samantha Tavares

No domingo passado foi o Dia das Mães e as redes sociais com toda certeza foram bombardeadas com homenagens, seja por fotos, vídeos, músicas… porém e os outros 364 dias? 

Em uma sociedade onde a mulher cada vez mais ocupa diversos lugares e papéis, a discussão acerca da maternidade é cada vez mais presente. Mesmo assim, ainda temos um ideal romantizado sobre esse papel, que ronda o imaginário social e influencia a vida das mulheres, direta ou indiretamente.  

Porém, antes de tudo é importante dizer o que significa romantizar. Quando estamos romantizando sobre algo, queremos dizer que essa pessoa não está vivendo essa experiência como de fato ela é, e sim, está imaginando, idealizando, sonhando, mistificando. Ou seja, o olhar sobre a experiência, não leva em consideração as emoções sentimentos, preferências ou a realidade em si. É um olhar distorcido sobre a experiencia vivenciada. 

É muito comum ouvir dizer que nasce um filho, nasce uma mãe que deixa de lado os próprios sentimentos e desejos em prol do amor dedicado aos filhos. Presa a essa função, a mulher não mais poderá abandoná-la sob pena de condenação moral. Quantas de nós, muitas vezes se sentiu uma péssima mãe por pensar que queria um tempinho só pra você, sem pensar em filho, escola, troca de fralda, fazer dever de casa? 

Essa romantização da maternidade propaga o pensamento da natureza feminina que toda mulher nasceu para ser mãe. Esse pensamento atravessa a vida das mulheres desde o momento de seu nascimento, intensificando-se em forma de cobranças com o passar dos anos. Mesmo com todos os estudos realizados na área e com os avanços em termos de igualdades entre os gêneros e desconstrução de paradigmas, a maternidade ainda é vista como uma obrigatoriedade. Essa pressão social sobre as mulheres está para além de toda a idealização introduzida culturalmente sobre a maternidade, podendo ser identificada como um símbolo do controle social sobre o corpo e as ações femininas, o que representa uma forma expressiva de opressão de gênero. Eu, como mãe de uma adolescente de 17 anos, constantemente escuto perguntas como: Por que você só teve uma? Não pensa em ter mais? Essas perguntas me permeiam, mesmo eu não sendo casada. A pressão da sociedade, culturalmente falando é muito grande. É como se todas as conquistas que nós mulheres conquistamos fossem pequenas, o mais importante é sermos mães. 

Escrevi esse texto na noite após as comemorações dos Dias das mães. Pensei que ninguém irá entender o que de fato é a maternidade até poder vivencia-la. Como eu vivencio a 17 anos…já passei pela fase das noites mal dormidas, de virar a noite amamentando ou simplesmente por sua filha estar com o nariz entupido, tossindo e você vigiando o sono a noite toda, sabendo que no outro dia você tem que estar acordada para trabalhar e cuidar das atividades maternas diurnas. Hoje vivencio uma outra parte da maternidade: Tiro o celular do silencioso nas madrugadas do fim de semana, esperando um “mãe, estou bem, já já chego!”, ou ser acordada no susto por “mãe, cheguei !” Contudo, não importa a idade que tenha nossos filhos: as culpas da maternidade sempre nos assombram … A gente se culpa pelo parto, pela amamentação, por não está presente em todos os momentos porque temos que trabalhar, pelo choro, pelo “não” que falamos para o nosso filho fazendo ele chorar mesmo sabendo que é o melhor para ele. A gente se questiona o tempo todo se estamos certas, se estamos sendo permissivas demais ou autoritária demais. É como se mãe fosse um ser sobrenatural que precisa sempre dar conta, que precisa sempre estar atenta. 

Essa parte é muito difícil de entender muita das vezes. A supervalorização do pai quando ele é presente e a desvalorização da mãe quando ela não consegue ser ou quando ela falha de alguma forma. Muitas mulheres sofrem com isso … pelas partes que existem na maternidade que só compete a mulher, assim como as dores que só ela vai entender. 

Ser mãe implica diariamente na desconstrução de padrões alicerçados na representação social de que é preciso ser super mãe, que é possível dar conta de todas as dimensões da vida no mesmo patamar de importância, excelência e desempenho e ainda assim continuar linda e feliz. Antes de tudo mãe é um ser humano. Ela se cansa, corre atrás de sonhos e objetivos, se esforça para se arrumar, ela erra, tem sonhos profissionais, e é sempre julgada desde o primeiro instante da gravidez. 

Definitivamente, a maternidade é cansativa, porém isso não quer dizer que as pessoas não amem seus filhos. O debate aqui é justamente tentar se livrar dessa teia social que isso se tornou. Ser mãe é ser contraditória. Mãe atura marido por medo de se separar. Por medo de ser mãe solteira. Mãe atura até violência doméstica por isso. Mãe tem dores. Físicas e psicológicas. Além das suas dores, mãe também sente as da cria, e como sentimos! 

É muito simples nos colocarem como guerreiras, mas na verdade, somos pessoas que estamos nos ferrando todos os dias por muitas vezes não temos ajuda ou ser julgada por qualquer atitude que tenhamos diferente do que a sociedade impõe. Um exemplo clássico disso é: Quantas mães estão em alguma festa, no salão de beleza, na academia e tem sempre aquele comentário: “Onde está o (a) filho (a) ? Deixou com quem ?” Quando minha filha começou a viajar para fora do país com seis anos, viajando com a família do pai, ouvi tantos: “Nossa, você não acha ela muito nova pra viajar assim?” “Se fosse eu, não deixava!” “Tadinha…ela é muito novinha para ficar tantos dias longe de você…” E por aí vai. 

Precisamos urgentemente parar de julgar a maternidade alheia com a nossa régua, baseado na nossa vivência. Ser mãe não existe uma receita, tenha certeza que quase todas as mulheres estão dando o seu melhor na condição que tem, então que tal praticar a empatia, tão falada nas redes sociais e tão pouco usada no dia a dia?  Ser mãe não é padecer no paraíso. Não por nossos filhos, que fique claro, mas pelo que eles e nós enfrentamos no mundo lá fora. A maternidade não é um conto de fadas, e as pessoas precisam entender isso. Mesmo assim, agradeço pela maternidade ter vindo a minha vida de forma precoce, mas que me tornou tão forte, tão batalhadora e tão envaidecida pela cria que coloquei no mundo. 

Sobre a autora
Samantha Tavares é formada em serviço social e pós graduada em projetos sociais, está cursando a especialização em pericia social. Atualmente coordena o projeto Brasil Sem Fronteiras que acolhe famílias venezuelanas refugiadas, vindas de Boa Vista.

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